Mantinha minha cabeça encostada no vidro do
carro, enquanto batucava os dedos em minhas pernas. Sono! Muito sono. Estava alheia
ao que acontecia dentro daquele carro. Demasiadamente fatigada para prestar
atenção na música que minha irmã cantarolava em balbucios, e também para
interagir sobre o tempo, se não estou engana, minha mãe pontuava empolgadíssima
com meu irmão sobre a nova estação que adentrava: o inverno.
O relógio marca 6h20 da manhã, ainda era cedo para
ir à escola. Decidi então ficar na feira e ajudar minha mãe com as sacolas. Não gosto de aglomerados e toda aquela gente
conversando ao mesmo tempo era irritante.
Passo os olhos sorrateiramente sobre o ambiente
cheio de barracas e pessoas de todo os tipos imagináveis. Algumas conversavam
por telefone e outras se esbarravam com conhecidos e aproveitavam para
conversar um pouco. Os feirantes conversam sobre coisas triviais com seus
clientes, outros faziam propaganda sobre seus produtos incentivando as
pessoas a se aproximarem e conhecerem suas mercadorias. E com o passar do tempo
mais frutas foram vendidas. Mais uma fala repetitiva do vendedor de maçãs é
pronunciada. E mais gente chega à feira e a praça vai ficando repleta.
Até ela também veio.
Chuvisquinhos de água resolvem se juntar àquela
gente.
As gotinhas de água também querem se encontrar com
as pessoas. Ponho-me a observar a reação das pessoas quanto à presença da
chuva. É surpreendente o resultado. Parecia que ela já era esperada, todos
aguardavam sua chegada ansiosamente.
De súbito, ela se desmorona nas barracas e entre as
pessoas. Parece que ela sentia saudade de brincar nas ladeiras, e, de tão
travessa, molhar os pés de quem passava por ali.
Era tão penetrante que molhava até o coração.
Todo mundo corria para se agasalhar nas barracas e alguns
gritavam eufóricos saudando a visita. Era simples. Sim, apenas chuva. Mas
havia algo maior naquela chuva, e era inexplicável.
No entanto, continuava a gritaria que parecia
incessante. Que música linda Deus está tocando. E é essa música que nos torna
ricos, fartos, abençoados. Pego o ritmo, e acompanho essa melodia
batucando meus dedos, agora, na madeira da barraca em que estou. Nem para todas
as sextas serem chuvosa! Nem para todas as sextas tocarem essa melodia, para
que molhassem todos corações duros que não sentem afeto por coisas
tão simples, que são tão grandiosas
Ainda bem que tem mais chuva esse mês para molhar
mais corações e mais sextas-feiras de esperança.
Chayane Vieira Barbosa, 8ª A, MÉDICI, 2016
